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Rasga-mortalha

Em um mundo onde a história oficial é narrada pelos poderes dominantes, quanto da memória popular nordestina restará no futuro e quem contará nossas histórias? Como salvaguardar saberes, crenças, encantamentos passados de avó para mãe e de mãe para filha?

Há um tempo venho trabalhando aspectos da permanência e do esquecimento através de uma série de concept art que chamei de Contos de Fim de Mundo, acreditando no poder da imagem para manter viva a presença dos meus antigos e da cultura em que me desenvolvi, usando imaginação como um recurso de resistência e pensando que a morte da memória é a única morte verdadeira.

Contos de Fim de Mundo é uma série de fruições imaginativas que se valem da memória familiar e cultural de uma Bahia gestada no sincretismo, na diáspora africana, nas lendas e no encantamento. É uma tentativa de criar um relicário de algumas vivências na região do Recôncavo frente ao apagamento das "memórias subterrâneas". Nesse esforço, inicio com um esboço da rasga-mortalha das lendas como uma entidade misturada a outros simbolismos inspirados no Bando Anunciador de Feira de Santana, o Terno da Alvorada das Festas d’Ajuda/Boa Morte de Cachoeira, as Caretas do Mingau de Saubara e a cerâmica de Maragogipinho.